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PERSPECTIVAS EM MEDICINA NUCLEAR

Por Dra. Alice F. Viana

Em um ano que a humanidade enfrentou sua grande epidemia do século e mostrou que a união entre a comunidade científica pode resultar em grandes feitos, escrevemos este último informativo do Grupo RPH com as novidades que estão por vir na área de Medicina Nuclear e que prometem melhorar a qualidade de vida, principalmente dos pacientes com câncer.

Nos últimos anos, o mercado de medicina nuclear está passando por muitas mudanças. A especialidade médica, não muito conhecida do grande público, vem ganhando cada vez mais espaço como uma importante ferramenta no tratamento oncológico.

A seguir vamos comentar sobre alguns produtos que já estão no mercado brasileiro e/ou mundial e outros que estão por vir:

Teranóstico em Câncer de Próstata

TERANÓSTICO é um neologismo que une as palavras TERApia e diagNÓSTICO, ou seja, a mesma molécula pode ser usada para terapia ou diagnóstico de tumores mudando-se o radioisótopo utilizado. Um exemplo dessa tecnologia são os ligantes do receptor PSMA (Prostate Specific Membrane Antigen Antígeno de Membrana Específico da Próstata).

O ligante do receptor PSMA conhecido como PSMA-11 marcado com Ga-68 e tem sido usado com sucesso para o diagnóstico de recidiva de câncer de próstata na Alemanha e em muitos centros na Europa, Austrália, Estados Unidos da América desde 2014. A utilização de PET/CT com 68Ga-PSMA-11 tem provado ser uma tecnologia muito importante para a terapia e tratamento individualizados de pacientes com câncer de próstata. Fazendo parte, inclusive, das diretrizes de exames indicados pela Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC)

Enquanto para a terapia, nos últimos 5 anos, um ligante do receptor PSMA marcado com Lu-177 (emissor beta) mostrou ser um tratamento altamente promissor para pacientes com câncer da próstata metastático resistente à castração (mCRPC) e com efeitos adversos mais toleráveis que de alguns quimioterápicos. Sendo inclusive recomendado por algumas diretrizes urológico-oncológicas no mundo.

Uma abordagem diferente para aumentar a eficácia da terapia com radiofármacos direcionado ao receptor PSMA é o uso do emissor alfa Ac-225. Testes clínicos iniciais mostraram que a terapia com 22Ac-PSMA induzir uma impressionante redução na carga metastática e que a toxicidade hematológica é baixa, mesmo na presença de metástases ósseas difusas e da medula óssea. No entanto, a xerostomia foi significativamente mais grave do que para 177Lu-PSMA. Atualmente esse fator se tornou a toxicidade limitante de dose, e a melhor relação dose X efeitos adversos está sob investigação.

Outra ferramenta importante na área de diagnóstico é o uso de ligantes de PSMA com o radionuclídeo Tecnécio-99m. Estes radiofármacos podem ser usados para imagens pré-operatórias de SPECT e orientação cirúrgica, com detectores de radiação rotineiramente usados em cirurgias radioguiadas. Esta nova técnica vem sendo usada há aproximadamente 5 anos para cirurgias radioguiadas e tem se mostrado de alto valor para detecção intraoperatória e remoção de linfonodos com metástases.

Diagnóstico Câncer de Mama

Há vários tipos de câncer de mama, 70 a 75% expressam receptores de estrógeno (RE). A partir da década de 1980, foram desenvolvidos radiomarcadores para melhor caracterizar a biologia do tumor, incluindo o 18F-fluoroestradiol (18F-FES). Vários estudos mostraram que a detecção de lesões positivas para RE em exames de PET com 18F-FES é confiável e que a captação de 18F-FES se correlaciona bem com os resultados de imuno-histoquímica em biópsias.

Atualmente, existem discussões na Europa e nos EUA sobre a aprovação regulatória para o 18F-FES com base em estudos publicados e na acumulação de dados de estudos multicêntricos prospectivos. A disponibilidade do diagnóstico de PET/CT com 18F-FES irá melhorar a terapia para câncer de mama, sendo possível se detectar as pacientes que realmente irão responder ao tratamento hormonal.

 NOVOS ALVOS, RADIOFÁRMACOS e RADIOISÓTOPOS

São muitos os novos alvos terapêuticos e inclusive novos radioisótopos que estão surgindo. Vamos ressaltar 2 deles e resumir.

Terapia Câncer de pele

Nos últimos 30 anos, a eficácia do átomo radioativo Rênio-188 para uma variedade de aplicações terapêuticas foi testada em vários estudos clínicos. Em 2011 foi desenvolvido um nanocoloide contendo Re-188 para ser usado no tratamento de carcinoma basocelular e de células escamosas. Já é utilizado na África do Sul, Alemanha, Austrália e Itália.  A experiência de uso demonstrou ótimos resultados estéticos, sem desconforto e não mutilante.

Imagens cedidas por Cipriani, C-S Hospital S. Eugenio.

Diagnóstico de múltiplos tipos de câncer

A Proteína de ativação de fibroblastos (FAP) é superexpressa em fibroblastos associados a vários tipos de cânceres. Um traçador que atua como inibidor da FAP (FAPIs) marcado com Ga68 demonstrou resultados promissores no diagnóstico de em 28 tipos de cânceres. Exemplos: mama, colorretal, cabeça e pescoço, esôfago, pâncreas, tireóide, útero, câncer de pulmão de células não pequenas, carcinoma hepatocelular, lipossarcoma, carcinoma de células renais.

Por isso se considera que o 68Ga-FAPI tem potencial uso em casos em que o 18F-FDG possui limitações, ou até mesmo como seu substituto. Além disso, quando marcado com 177Lu, é um possível alvo terapêutico.

Na Tabela 1 apresentamos resumidamente produtos que estão em pesquisa para Terapia Radiofarmacêutica. Podemos observar o uso de alvos terapêuticos novos e, principalmente, de novos radioisótopos, assim como o novo uso do antigo I-131. Para os agentes em etapa clínica o código NCT permite a busca no site Clinicaltrials.gov.

Referências:

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