BLOG

..

Tecnologia em Medicina Nuclear: Desenvolvimento de Novas Moléculas para Terapia e Diagnóstico de Tumores

Por Dra. Alice Fialho Viana

Nos últimos anos, o mercado de Medicina Nuclear tem passado por muitas mudanças. A especialidade médica, não muito conhecida do grande público, vem ganhando cada vez mais espaço como uma importante ferramenta no tratamento oncológico.

Essa mudança deve-se principalmente a novas tecnologias que permitiram um rápido desenvolvimento de novas moléculas para a aplicação do Teranóstico em Medicina Nuclear. TERANÓSTICO é um neologismo que une as palavras TERApia e diagNÓSTICO, ou seja, a mesma molécula pode ser usada para terapia e/ou diagnóstico de tumores, mudando-se apenas o radionuclídeo utilizado. Um exemplo dessa tecnologia é a molécula PSMA:

Essa molécula, ao ser marcada com o radionuclídeo gálio-68, é usada para diagnóstico de tomografia por emissão de pósitrons (PET), técnica de diagnóstico de câncer de próstata superior às demais modalidades de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética.  Quando marcada com lutécio-177, ela é um dos últimos recursos para a terapia de câncer de próstata metastático resistente à castração (mCPRC), como veremos abaixo.

MEDICINA PERSONALIZADA COM PSMA-Lu177

Pacientes com câncer de próstata localizado, tem uma taxa de sobrevivência por mais de 5 anos de praticamente 100%. Por isso o diagnóstico e tratamento precoces são importantes. No entanto, em pacientes com a forma metastática dessa doença, essa taxa de sobrevivência cai para apenas 31%. Inicialmente, quase todos os pacientes com doença metastática respondem à terapia padrão com hormônios. Com a progressão da doença, os tumores tornam-se insensíveis aos hormônios, o que, apesar do uso de outros tratamentos, pode levar à morte de 69% dos pacientes em menos de 5 anos1.

A proteína PSMA (antígeno de membrana específico da próstata) tem sua quantidade aumentada quanto maior for a malignidade do câncer de próstata, principalmente em pacientes que não respondem à terapia com hormônio (câncer de próstata resistente à castração). Devido a isso, a proteína PSMA é um alvo interessante tanto para o diagnóstico como para o tratamento do câncer de próstata1.

Vários ligantes de PSMA foram desenvolvidos na Alemanha. O Lu-177, radionuclídeo emissor de partículas β de baixa energia, o que permite que esse radionuclídeo seja usado para terapia. A baixa energia de partículas β faz com que a maior parte da dose permaneça localizada em pequenas zonas, o que tem se mostrado ideal para tratar metástases e minimizar dano aos rins e à medula óssea, no caso de metástases ósseas. A meia-vida de 6,64 dias é longa o suficiente para permitir uma ligação estável a moléculas, garantindo uma adequada logística de distribuição para hospitais e clínicas distantes dos centros produtores1,2.

Desde 2015, vários estudos clínicos relataram resultados promissores no uso de PSMA-Lu-177 e um perfil de segurança favorável para o tratamento de pacientes com mCRPC1.

Alguns resultados relevantes são:

  • • Declínio significativo do PSA (≥50%) em 30-70% dos pacientes 3,4. Os tratamentos de terceira linha (abiraterona, enzalutamida, cabazitaxel) apresentam uma redução de PSA ≥50% em média de 22%; para o PSMA-Lu-177, essa média foi de 44% 3.
  • • Pacientes tratados com PSMA-Lu-177 tenderam a viver mais do que os pacientes que receberam tratamento de terceira linha; 14 meses versus 11 meses3. Outra revisão mostra que a média de sobrevivência pode chegar a 27 meses 4.
  • • Progressão livre de doença é de aproximadamente 11,5 meses 4.
  • • Quando comparado aos tratamentos de terceira linha, o PSMA-Lu-177 foi interrompido com menos frequência devido a efeitos adversos. Os tratamentos de 3ª linha foram interrompidos em 33% dos pacientes, enquanto nenhum paciente com PSMA-Lu-177 teve de descontinuar o tratamento devido a esses efeitos3.
  • • A remissão objetiva do mCPRC foi de 28,5% (PSMA-Lu-177) versus 15% (3ª linha)3.
  • • Em relação aos parâmetros RECIST (Response Evaluation Criteria in Solid Tumors)
  •      •    Resposta completa: 4% – 5% dos pacientes 4,5.
  •       • Doença estável: 27% – 63% dos pacientes 2,4,5.
  •       • Resposta parcial: 23,7% – 26% dos pacientes 2,4.
  •       • Progressão da doença: em média 33 % dos pacientes 2,4,5.

Enfatizamos que o tratamento com PSMA-Lu-177 para mCPRC envolve um gerenciamento multidisciplinar com estreita colaboração entre médicos nucleares, urologistas, oncologistas e demais áreas afins.

Referências:

  1. Rahbar K, Ahmadzadehfar H, Kratochwil C, et al. German Multicenter Study Investigating 177Lu-PSMA-617 Radioligand Therapy in Advanced Prostate Cancer Patients. J Nucl Med. 2017;58(1):85–90.
  2. Fendler WP, Rahbar K, Herrmann K, Kratochwil C, Eiber M. 177Lu-PSMA Radioligand Therapy for Prostate Cancer. J Nucl Med. 2017 Aug;58(8):1196-1200.
  3. von Eyben FE, Roviello G, Kiljunen T, Uprimny C, Virgolini I, Kairemo K, Joensuu T.
  4. Third-line treatment and 177Lu-PSMA radioligand therapy of metastatic castration-resistant prostate cancer: a systematic review. Eur J Nucl Med Mol Imaging. 2018 Mar;45(3):496-508.
  5.  Kulkarni HR, Singh A, Langbein T, Schuchardt C, Mueller D, Zhang J, Lehmann C, Baum RP. Theranostics of prostate cancer: from molecular imaging to precision molecular radiotherapy targeting the prostate specific membrane antigen. Br J Radiol. 2018 Nov;91(1091):20180308.
  6. Heck MM, Tauber R, Schwaiger S, et al. Treatment Outcome, Toxicity, and Predictive Factors for Radioligand Therapy with 177Lu-PSMA-I&T in Metastatic Castration-resistant Prostate Cancer. Eur Urol. 2019;75(6):920–926.