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EXAMES DE MEDICINA NUCLEAR PARA A DOENÇA DE PARKINSON

Nas últimas décadas a sociedade está apresentando um proeminente fenômeno mundial, o envelhecimento populacional. De acordo com fontes do IBGE, em 2035, 15% da nossa população será constituída de idosos. Este aumento da expectativa de vida faz com que as enfermidades neurodegenerativas fiquem cada vez mais comuns

 

De acordo como a Organização Mundial de Saúde, a partir da metade deste século, as doenças degenerativas representarão a segunda maior causa de óbito no mundo, atrás apenas das doenças cardiovasculares. Entre elas está a doença de Parkinson (DP).

 

A Doença de Parkinson (DP) é uma desordem neurodegenerativa progressiva, ou seja, vai piorando com o passar do tempo. Ela ocorre por causa da morte de neurônios em uma região específica do cérebro, a substância nigra (SN) e afeta sua conexão com o estriado. A conexão entre a SN e o estriado se dá através da substância dopamina, um neurotransmissor, produzido pela SN.  A dopamina tem várias funções no corpo, entre elas o controle do movimento. A redução de dopamina que chega ao estriado, leva ao aparecimento do quadro clínico da Doença de Parkinson: tremor em repouso, rigidez muscular, lentificação do movimento, entre outros. Porém estes sintomas não são exclusivos da DP, doenças como: tremor essencial, encefalites, demência por corpos de Lewy, neurossífilis e tumores cerebrais podem desencadear sintomas semelhantes.

Figura 1. Neuropatologia da doença de Parkinson (A) Representação esquemática da via nigrostriatal normal (em vermelho). É composto por neurônios dopaminérgicos cujos corpos celulares estão localizados na substância (SNpc; veja setas). Esses neurônios se projetam (linhas vermelhas sólidas grossas) para estriado, formado pelas estruturas denominadas caudado e putâmem. (B) Representação esquemática da via nigrostriatal doente (em vermelho). Na doença de Parkinson, a via nigrostriatal degenera. Há morte dos,  neurônios dopaminérgicos na SN principalmente os que se projetam para o putâmen (linha tracejada) e uma perda menor daqueles que se projetam para o caudado (fina linha vermelha sólida). Fonte: Parkinson’s Disease Mechanisms and Models. [online]. 2003

Apesar dos sintomas da Doença de Parkinson serem conhecidos, os fatores que causam a morte de neurônios ainda estão em pesquisa, isto dificulta a descoberta de um tratamento curativo. O principal medicamento para DP, Levodopa, é distribuído gratuitamente pelo SUS, mas ele não cura, apenas melhora os sintomas. Entretanto, com a progressão da doença, os pacientes passam a não responder adequadamente à Levodopa.

 

Um dos grandes problemas para um melhor tratamento da DP é a dificuldade de um diagnóstico acurado e precoce. A taxa de erro no diagnóstico baseado apenas no exame clínico pode variar entre 10 – 50 %, dependendo se for feito por um especialista ou um clínico geral. Este fato é preocupante uma vez que, a DP é a segunda doença neurodegenerativa senil mais comum, acometendo entre 1% a 2% (200 – 400 mil pessoas) da população acima dos 65 anos de idade no Brasil.

0,4% das pessoas > 40 anos

1% das pessoas ≥ 65 anos

10% das pessoas ≥ 80 anos

Tendo média etária de início da doença aproximadamente aos 57 anos.

 

O diagnóstico por imagem de Medicina Nuclear vem se mostrando uma valiosa ferramenta para os neurologistas. Abaixo (Figura 2) mostramos radiofármacos para realização de imagens de SPECT (Tomografia computatorizada por emissão de pósitron único, ou simplesmente cintilografia) ou de PET (Tomografia por emissão de pósitron) em pacientes com Doença de Parkinson. A maioria destes produtos é usada apenas em pesquisa.

Figura 2 : Radioligantes dopaminérgicos para SPECT e PET. β -CFT = 2β-carbometoxi-fluorofenil tropano; DAT = transportador de dopamina; dopa = di-hidroxifenilalanina; DMFP = desmetoxifaliprida; dMP = d-t-metilfenidato; DTBZ = di-hidrotetrabenazina; FE-CIT = ioflupano; IBZM = iodobenzamida; NMSP = N-metilspiperona; PE2I = iodo- nortropano; TRODAT-1 = tropantiol; VMAT = transportador de monoamina vesicular; WIN = WIN 55.212-2 agonista do receptor canabinóide. Fonte: The Role of Dopaminergic Imaging in Patients With Symptoms of Dopaminergic System Neurodegeneration. [online] 2011.

No mercado brasileiro, o único radiofármaco disponível comercialmente para auxiliar no diagnóstico da doença de Parkinson é o TRODAT-1. Sua molécula se liga a estruturas que transportam a dopamina para dentro dos neurônios (transportador de dopamina, DAT). O diagnóstico se baseia no fato de, com a morte de neurônios dopaminérgicos, o paciente terá menos DAT. Quando marcado com o radioisótopo Tecnécio-99m o TRODAT-1 será capaz de mostrar esta redução no número de transportadores através de imagens de cintilografia.

Figura 3: Imagem de cintilografia com 99mTc-TRODAT-1 em quatro pacientes com doença de Parkinson em estágios diferentes e um controle normal. A diferenciação entre normal e DP baseia-se nas diferenças de intensidade de captação, ou seja, quanto menos cor vermelho-amarelada mais avançada está a doença. Fonte: Shen LH, et al. (2011). CC Open Access

 

Estudos clínicos mostram que o exame de cintilografia com 99mTc-TRODAT-1 é capaz de diferenciar pacientes de pessoas saudáveis.  O uso na rotina médica mostra que o exame é particularmente valioso para pacientes com parkinsonismo clinicamente inconclusivo ou diagnóstico clínico de possível demência por corpos de Lewy. Outros usos potenciais da imagem com 99mTc-TRODAT-1 incluem a identificação de pacientes com doença de Parkinson pré-motora (antes de iniciar o tremor), monitoramento de progressão da doença, e como critério de inclusão para entrada em ensaios clínicos de testes de novos tratamentos.

Referências

Cummings JL, Henchcliffe C, Schaier S, Simuni T, Waxman A, Kemp P.The role of dopaminergic imaging in patients with symptoms of dopaminergic system neurodegeneration. Brain. 2011 Nov;134:3146-66.

IBGE site: https://www.ibge.gov.br/apps//populacao/projecao/

Shih MCi, Amaro Jr E, Ferraz HB, et al. Neuroimagem do transportador de dopamina na doença de Parkinson: primeiro estudo com [99mTc]-TRODAT-1 e SPECT no Brasil. Arq. Neuro-Psiquiatr. [online]. 2006

Shen LH, Tseng YC,Lliao MH, Fu YKJ. The role of molecular imaging in the diagnosis and management of neuropsychiatric disorders.Biomed. Biotechnol. 2011. Article ID 439397

Dauer W .Parkinson’s Disease Mechanisms and Models.[online]. 2003